A IMUTABILIDADE DE DEUS
RESUMO
Este artigo tem por finalidade explorar um
pouco dos aspectos de um dos atributos de Deus; a Imutabilidade. Nos escritos sagrados, observamos dois tipos
de atributos de Deus: Os atributos naturais e os atributos morais. A
imutabilidade, também conhecida por “Constância”,
trata-se de um atributo de grandeza de Deus. Ele é imutável em sua essência,
este conceito interfere diretamente em toda a nossa visão do Ser de Deus. Através
do conceito de um Deus imutável, somos levados a compreender a perfeição do Seu
Ser. A Bíblia declara em vários textos a constância de Deus; “Porque eu o Senhor não mudo” (Ml 3.6). Apesar das variedades de textos
sagrados contendo as afirmações da imutabilidade Divina, não são poucas as
distorções que encontramos em falsas doutrinas e heresias, neste artigo vamos
buscar de forma sistemática esclarecer alguns pontos distorcidos e conciliar
alguns textos que aparentemente parecem contradizer o conceito da imutabilidade
de Deus.
PALAVRAS CHAVES
Atributos, Constância,
Imutabilidade, permanência.
INTRODUÇÃO
A palavra “Imutável” tem como significado
algo puro que não pode ser impuro ou sujo de nenhuma forma. O dicionário online
diz que é algo permanente, que não pode ser alterado.
A ideia que podemos observar nesse
atributo de grandeza de Deus é que a imutabilidade não nasce ela simplesmente
existe, pois algo que é criado ou nascido, precisa ser mudado ou gerado, algo
imutável nunca foi gerado, mudado ou transformado, ele sempre existiu. Esse conceito é totalmente coerente e
relacionado com o conceito de perfeição e eternidade de Deus. Somente um ser
eterno e perfeito teria o atributo da imutabilidade, pois Ele não possui início
nem fim.
O texto de Tiago 1.17 diz: “Toda boa dádiva
e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não
pode existir variação ou sombra de mudança”. Nada que é perfeito
pode conter variações ou mudanças, pois o que é perfeito não pode ser alterado.
A asseidade (autossuficiência) de Deus está diretamente envolvida com o
atributo de sua perfeição, Ele está exaltado acima de tudo o que há.
Apesar de toda
expressão, doutrinas e escritos bíblicos desse atributo de Deus, existem
algumas passagens bíblicas que parecem atribuir mudança ou variação a Deus.
Essas objeções serão tratadas nesse artigo através de conceitos teológicos e
bíblicos que demonstram os erros interpretativos e teológicos que muitos
cometem pela falta de conhecimento e ferramentas hermenêuticas corretas que
devem ser aplicadas ao texto bíblico.
ATRIBUTOS DE DEUS
Para uma melhor interpretação desse
atributo devemos entender as divisões e conceitos de atributos que permeiam e
se relacionam objetivamente com a Imutabilidade de Deus. Numa visão mais
ortodoxa e tradicional os atributos de Deus são definidos em dois parâmetros:
- Atributos
Incomunicáveis:
São aqueles não transmitidos, apenas inerentes a Deus e o seu Ser, tais
como: Asseidade, Imensidade, infinidade, imutabilidade, etc...
- Atributos
Comunicáveis: São
aqueles que são transmitidos, ou que possui alguma analogia com o espírito
humano; tais como: bondade, misericórdia, retidão, etc...
Vamos nos deter aos atributos
incomunicáveis os quais estão diretamente relacionados com a Imutabilidade de
Deus, para que possamos entender de maneira mais abrangente tudo que envolver a
Constância de Deus. Segundo escreveu Louis Berkoff em Teologia Sistemática;
A imutabilidade de Deus é necessariamente concomitante com a sua asseidade. É a perfeição pela qual não há mudança nele, não somente em seu Ser, mas também em suas perfeições, em seus propósitos e em suas promessas.
“Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais.” (At 17.25)A IMUTABILIDADE DE DEUS
Nesse texto de Atos dos
apóstolos podemos observar claramente a autossuficiência de Deus, Ele não
necessita de nada, pelo contrário tudo que foi criado depende do seu criador.
Somente um Ser perfeito em sua essência seria capaz de manter todas as coisas
em sua dependência. A imutabilidade tem essa relação com a perfeição: “Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o
pai celestial de vocês” (Mt 5.48). A perfeição de Deus, também chamada de
infinidade de Deus, é o atributo pela qual Ele é isento de toda e qualquer
limitação.
Deus não possui limites nem no espaço nem no tempo, Deus está acima do universo das leis naturais, físicas, matemáticas ou de qualquer outra causa, seja natural ou sobrenatural. Essa transcendência de Deus nos mostra que Ele está acima de todas as coisas e em Si mesmo Ele governa tudo, essa relação da perfeição de Deus e sua relação com tempo e espaço, é essencial para a compreensão desse atributo de constância de Deus. Sobre isso Louis Berkhof escreveu:
Deus não possui limites nem no espaço nem no tempo, Deus está acima do universo das leis naturais, físicas, matemáticas ou de qualquer outra causa, seja natural ou sobrenatural. Essa transcendência de Deus nos mostra que Ele está acima de todas as coisas e em Si mesmo Ele governa tudo, essa relação da perfeição de Deus e sua relação com tempo e espaço, é essencial para a compreensão desse atributo de constância de Deus. Sobre isso Louis Berkhof escreveu:
A perfeição de Deus pela qual ele é elevado, acima de todos os limites temporais e de toda sucessão de momentos, e tem a totalidade da sua existência num único presente indivisível.
Partindo do ponto de
entendimento que a imutabilidade de Deus está correlacionada com sua Asseidade
e Perfeição, fica muito mais fácil a compreensão desse atributo que afeta
diretamente a nossa visão de Deus e seu papel em toda criação. Em sua Teologia
Sistemática Franklin Ferreira diz:
Deus é imutável, Deus não muda seu ser, planos, propósitos, promessas e perfeições. No seu ser, Deus já é perfeito. Portanto, ele não pode mudar porque qualquer mudança implicaria em que ele se tornasse mais, ou menos, perfeito. “Ele não pode mudar para melhor, pois já é perfeito; e, sendo perfeito, não pode mudar para pior”. As duas possibilidades são um absurdo. Mesmo assim Deus não é um ente parado e afastado do mundo que Ele criou.
Mesmo Deus sendo imutável
perfeito eterno e autossuficiente, Ele não esta inerte ou distante de sua
criação, é comum às pessoas terem uma imagem de um Deus distante e imóvel que
não interage ou age em sua criação. O teólogos tem hábito de falar em Deus como
actus purus, Deus sempre em ação, Ele
está sempre e em constante relação com a sua criação. Berkhoff afirma: Deus está em multiformes relações com os
homens, por assim dizer vive sua vida com eles. A bíblia nos mostra que
Deus está agindo e interagindo nas relações com os homens, isso implica que
Deus está cercado de relações de mudanças, porém essas mudanças não são em Deus
e sim nos homens com Ele. “Porque Eu o Senhor, não mudo; por isso vós,
ó filhos de Jacó, não sois consumidos.” (Ml 3.6). As escrituras nos ensinam
que Deus permanece constante nas suas relações, observamos isso nas alianças e
pactos. Essa interação de Deus com as constantes mudanças dos homens nos mostra
que Deus não muda em sua essência, mas Ele interage nas mudanças das relações
humanas, pois tudo está sobre o seu controle, não afetando em nada a Sua
Soberania.
Devemos entender que o
propósito de Deus é eterno, mas isso não implica dizer que nas relações com a
sua criação não haja mudanças, o x da questão é que Deus não sofre mudança e
nem variação em seu Ser. Mesmo Deus encarnado em Cristo, não houve nenhuma
alteração do seu Ser, nem na sua perfeição, pois já era do seu propósito eterno
enviar seu filho desde criação do mundo. Então fica claro na Bíblia que a
vontade de Deus não sofre alteração, pois já está implícita em sua presciência.
O teólogo e escritor Paulo Anglada afirma em seu livro: SOLI DEO GLORIA, O Ser
e Obras de Deus:
Porque Deus é imutável, sabemos que o seu Ser e propósitos não se alteram. Por isso ele é fiel. É o mesmo ontem, hoje, e o será para sempre. Ele cumprirá todas as suas promessas e todas as suas ameaças.
O que é necessário compreender
é que por ser um Ser relacional, Deus está em constante relação com sua
criação, esse conceito deve ser compreendido a partir de dois atributos de
Deus: A Imanência e transcendência de Deus, pois Ele está acima de sua criação,
porém ao mesmo tempo presente nela. Através dessa compreensão fica mais fácil
agora entender uma questão que aflige muitos cristãos; porque existem textos
bíblicos que afirmam que Deus mudou de ideia ou se arrependeu?
Ex.: “Então se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra e isso lhe pesou o coração (Gn 6.6). “Então se arrependeu do mal que dissera havia de fazer ao povo” (Ex 32.14). “Arrependo-me de haver constituído Saul rei, porquanto deixou de me seguir e não executou as minhas palavras...” (1Sm 15.11).
Neste ponto é muito nítido que
se faz necessário a correta interpretação e entendimento desses textos, por
isso que o estudo das ferramentas interpretativas das escrituras é
essencialmente necessário. Franklin Ferreira no livro Teologia Sistemática diz:
Para se relacionar com o homem, Deus assume um comportamento pessoal, ao nível do entendimento da criatura. Por isso, Deus é representado na Escritura como se estivesse se arrependendo e mudando de intenção. Tais representações devem ser entendidas como antropomorfismos.
A linguagem antropomórfica tenta
explicar em palavras humanas as qualidades e expressões de Deus; R.N. Champlin,
em sua Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, ele afirma:
A tendência para expressar ideias acerca de Deus, sob formas humanas, física, mental, moral ou espiritual, é tendência da maioria das religiões, sendo quase impossível de ser evitada, devido às restrições da linguagem humana. Não há entre homens linguagem puramente divina, pelo que não há como falar sobre Deus sem usar termos que o antropomorfizem.
A deficiência linguística juntamente
com a necessidade de compreensão intelectual humana fez com que os escritores
bíblicos transmitissem de forma humana, sentimentos e expressões divinas que nesse
caso também chamamos de “Antropopatismo”, que nada mais é do que a atribuição
de sentimentos humanos a Deus. Por isso muitas vezes os termos utilizados como
“arrependeu”, “mudou”, tomam sentido de sentimentos, ações e linguagem humana. Nesses textos onde encontramos os termos se
arrependeu ou mudou, o que devemos compreender é que são termos que demonstram
a relação de Deus com os seres humanos, mas quem muda não é Deus e sim a
criação em seguimento a um propósito de Deus pré-estabelecido. Observamos no
texto de Jonas 3.9-10:
“Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos? Viu Deus o que fizeram, como se converteram do mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez”
Na verdade, a mudança não foi de Deus e
sim dos seres humanos que mudaram e cumpriram o propósito de Deus. Através da
correta interpretação desses textos, eliminamos quaisquer possibilidades de uma
mudança no Ser e propósitos de Deus, pois um Ser perfeito não pode coexistir
com mudanças na Sua essência. Por esse motivo precisamos combater veementemente
qualquer conceito que se expresse em sentido de mudança em Deus. No século 20
um movimento chamado de Teologia do processo desafiou a ideia da imutabilidade
de Deus, seu conceito é que a realidade está em processo. Como se Deus mudasse juntamente com os
processos do mundo, onde a maior expressão de Deus é o amor e por ele Deus muda
em suas ações. Porém a Bíblia nos mostra que Deus nunca muda que todas as
coisas já foram conhecidas e estabelecidas em seu propósito. O que podemos
entender que Deus não muda, mas sim a sua criação muda em relação aquilo que
Deus já conheceu e estabeleceu.
CONCLUSÃO
Neste breve artigo, concluímos
que o atributo de imutabilidade de Deus deve ser muito bem compreendido e de
que através do correto entendimento desse conceito pode ter uma visão mais
ortodoxa do Ser de Deus e de sua relação com a criação. Nos textos bíblicos
observamos um Deus que não muda e nem volta atrás, mas que cumpre seus
desígnios de uma maneira soberana, porém dentro de um sistema relacional de constantes
mudanças na criação e não no criador.
A partir da compreensão da
perfeição e eternidade de Deus, fica mais fácil a percepção do atributo de
constância de Deus, pois um Deus perfeito e eterno não pode haver mudança ou
sombra de variação, isto se torna uma questão lógica, pois o perfeito não pode
e nem precisa ser mudado. “Porque eu o
Senhor não mudo” (Ml 3.6). Deus afirma constantemente que Ele não muda e
nem se arrepende, pois é Perfeito. Como observamos neste artigo, apesar da
imutabilidade de Deus, o Senhor não está imóvel e inacessível, pelo contrário
Ele é vivo, ativo e presente em toda sua criação. Deus é relacional e se
relaciona com sua criação através do tempo e da história, apesar dele não
sofrer a ação do tempo nem da história, pois Ele transcende todas as coisas.
Finalmente podemos entender
que a correta compreensão do atributo da imutabilidade de Deus
nos proporciona uma confiança e certeza que suas promessas não podem mudar e
que a sua vontade permanece inalterada. O Deus das escrituras está presente e
se relacionando com sua criação, cumprindo seus propósitos e alianças, mesmo
quando nós criaturas deixamos de cumprir a sua vontade, isso não afeta o plano
e vontade soberana de Deus.
REFERÊNCIAS
FERREIRA, Franklin. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética
para o contexto atual. Editora: Vida Nova. São Paulo 2007.
BERKHOF,
Louis. Teologia Sistemática: Louis
Berkoff. Editora Cultura Cristã. São
Paulo. 2012.
ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática: Tradução de Robson Malkomes. Editora Vida Nova. São Paulo: 2015.
ANGLADA,
Paulo Roberto Batista. Soli Deo Gloria:
O Ser e Obras de Deus. . Editora Knox publicações: 2007.
ERICKSON,
Millard J. Introdução a Teologia
Sistemática: Editora Vida Nova. São Paulo 1997.
L.
GONZALEZ, Justo. Breve Dicionário de Teologia:
Editora Hagnos. São Paulo. 2009.
Bíblia de Estudo Almeida:
Edição Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil. 2ª Edição 1999.
Bíblia de Estudo MacArthur:
Edição Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil. 2010.
Bíblia King James:
Edição de Estudo – 400 Anos. Abba Press Editora e Divulgadora. Tradução King
James Atualizada. 1ª Edição set. 2012.
R.N.,
Champlin, Ph. D. Enciclopédia de Bíblia,
Teologia e Filosofia: Editora Hagnos.
Disponível
em: http://palavraprudente.com.br/biblia/definicao-de-doutrina-volume-1/capitulo-9-a-imutabilidade-de-deus/cesso
em: 20 junho. 2016.
Disponível
em: https://bible.org/node/21708. Acesso em: 15 junho. 2016.

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