Processo de conversão no primeiro século
Introdução
A
palavra conversão traz a ideia de mudança total ou radical de uma posição ou
orientação, pelo hebraico é traduzida a partir da raiz sub, “voltar”. No grego utilizam-se dois termos: metanoia, que designa uma mudança de
mentalidade de um homem que deseja se afastar do mal, é na maioria das vezes
traduzido por “arrependimento”. O substantivo epistrophé e o verbo epistrephein,
dão a ideia de mudança de direção.
No
contexto da Igreja primitiva esta ideologia de conversão, da mudança total da
direção do que se pensa ou nas atitudes que exerciam, não era algo comum ao
mundo pagão, principalmente com toda a bagagem Helenística e romana da época. A
filosofia grega tangia com muita proximidade aqueles povos e suas religiões e
nesta visão os cultos religiosos eram realizados sem a necessidade de uma
crença e muito menos de uma mudança total de vida. Vamos discorrer de forma
resumida e sucinta alguns pontos deste processo de conversão no primeiro século
e seus efeitos, também fazendo uma breve analogia com a conversão na
atualidade.
Desenvolvimento
No
primeiro século a influencia da filosofia era uma constante, observamos que as
escolas filosóficas gregas eram elementos presentes em várias culturas. No
contexto religioso pagão não havia necessidade de uma crença verdadeira para se
participar dos cultos e nem para se intitularem adoradores dos deuses. Não havia importância nenhuma ética ou
comportamental na religião, muito menos uma necessidade iminente de um
arrependimento sincero e o rompimento definitivo com uma prática do passado
errada e pecaminosa.
Alguns estudiosos como A.D. Nock defende
um ponto de vista em seu livro Conversion,que
existia uma semelhança muito profunda entre as escolas filosóficas e o
cristianismo, porém ele exagera neste ponto. Podemos entender que a influência
cultural era um fator comum da época e que no livro de Atos e nas cartas de
Paulo, observamos alguns embates e debates, contra algumas filosofias
existentes na época e ideologias religiosas. Vamos ver no texto de (AT 17:
16-34), Paulo em Atenas fala a alguns filósofos epicureus e estoicos, D.A.
Carson, em seu comentário Bíblico Vida Nova, fala que Paulo utilizou de uma
estratégia para despertar a atenção daquele público o que reflete em uma
necessidade de conhecimento de outras ideologias, que naquele contexto eram
muito presentes.
A
conversão cristã é tratada com tanta diferença aos helênicos, porque trouxe a
verdade do arrependimento, da total transformação da vida, mudança nas atitudes
e na ideologia de vida. Isto era totalmente estranho aos cultos dos deuses
pagãos e de toda a filosofia grega e romana, pois não existia uma crença de
arrependimento ou de mudança nos hábitos e práticas, era comum participar de toda
sorte de eventos e ideias e adorarem seus deuses sem a necessidade de um
compromisso real e leal. Este é o
cenário comum do primeiro século e a igreja primitiva cresce e se expande em
meio a esta transformação.
O
outro ponto que devemos analisar é atuação do Espírito Santo de Deus na Igreja,
após o derramar do Espírito no dia de Pentecostes (Atos 2), os discípulos são
revestidos do Poder de Deus e depois são perseguidos levando o Evangelho a
expansão. Alguns eruditos comentam que vários fatores foram primordiais para o
crescimento do cristianismo, a iminente necessidade de um Messias libertador, o
contexto histórico e cultural, a práxis Romana, as ruas e estradas, construídas
no império de Roma e a universalidade da língua grega. A grande questão da
conversão Cristã está nesta mudança comportamental e mental, realizada de uma
forma sobrenatural. A bíblia nos fala que A graça de Deus nos toca através da
Ação do Espírito Santo e somos levados ao momento de arrependimento. João
Batista já trazia a mensagem do arrependimento, pois já era chegado “o Reino
dos céus”. Era necessário abandonar as práticas erradas e se converter no
caminho que leva a salvação.
Este
cenário do primeiro século marcou a difusão de diversas seitas e religiões que
derivaram dos Ensinamentos dos Cristãos, por esta razão havia a grande
preocupação dos apóstolos em ensinar uma doutrina saudável e baseada na
instrução de Jesus Cristo. Observamos
esta preocupação bastante presente nas viagens missionárias de Paulo, no relato
do Batismo de Cornélio e quando Simão o mágico “abraça a fé”. Quando Felipe vai
até Samaria para pregar, ele encontra tal de Simão que iludia e tirava lucro
através dos seus truques e adivinhações, este mágico vê a manifestação do
Espírito Santo através das mãos de Pedro e procura receber a qualquer custo
este poder; então Pedro o repreende e explica sobre o dom de Deus. Apolo
pregava com ousadia e com inteligência, porém ele não conhecia o batismo do
Espírito Santo e havia alguma falha na sua doutrina, por isso, logo Priscila e
Áquila, o levam para casa e corrigem algo sobre o caminho. Já com o centurião Cornélio, observamos que
ele já havia recebido a graça, mas ainda não teria recebido o batismo do
Espírito Santo, então Pedro ensinando a eles, o Espírito Santo desce sobre
eles. Marshal Howard, Atos Introdução
e comentário, Ed. Vida Nova. Diz que o Espírito Santo era consequência da
crença em Jesus. Justo González, Atos
o Evangelho do Espírito Santo, Ed. Hagnos, que há uma relação muito próxima
entre ter o Espírito e ser capaz de confessar plenamente quem Jesus Cristo é.
A
conversão cristã no primeiro século teve esta característica como essencial, à
máxima que Jesus deixou em seu Evangelho:
“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” (Mt 28: 18).
Este era um grande sinal da verdadeira conversão, o Espírito Santo,
Ele comprova a verdadeira crença em Jesus Cristo, ou seja, uma conversão
completa. A igreja primitiva tinha a prerrogativa da Direção do Espírito Santo
e através desta orientação a universalidade da salvação foi conduzida para
todos os povos e nações.
Um
grande ponto semelhante com a conversão nos dias de hoje é o arrependimento e o
rompimento com as práticas pecaminosas, também vivemos em uma sociedade
composta de uma diversidade cultural e religiosa muito grande, além da
banalização religiosa em ascensão, que transforma a religião em algo prático e
corriqueiro, voltando à questão da falta de compromisso de vida com o que se
prega. Outro problema similar é a mistura de crenças que hoje denominamos
sincretismo religioso, absorção de práticas de outros cultos e religiões,
transformando tudo em uma verdadeira salada mista, sem lealdade e fidelidade ao
que se prega. Um ponto que também se torna bastante preocupante é o esfriamento
espiritual vivido por muitas pessoas que parecem ter uma pseudoconversão, algo
que não tocou verdadeiramente a alma e corpo da pessoa, que não houve a
experiência de regeneração total. Uma
percepção comum também é que o secularismo atingiu grande parte da igreja e que
podemos observar isso em muitos comportamentos exercidos pelos líderes e
membros da Igreja, deixando de lado a Sã doutrina e seguindo por caminhos
perigosos, onde a facilidade de se ter uma vida sem comprometimento com a obra
de Deus e condicionando a vontade de Deus a nossa vontade.
Conclusão
Em
termos gerais, o processo de conversão Cristão no primeiro século foi bastante
estranho para todo o contexto Greco-romano e para o Judaísmo como conceito de
uma conversão dentro de uma fé já iniciada por eles, porém conforme Michael Green declara no livro
Evangelização na Igreja Primitiva que era um grande choque para os gentios e
judeus terem que ser batizados. Para os Judeus era uma pedra de tropeço e para
os gentios era melhor que a circuncisão. Muitos eruditos afirmam que este
contexto sócio-religioso ajudou muito na difusão do Cristianismo e no processo
de conversão. Porém olhando no prisma Cristão sabemos que força impulsionadora
foi o próprio Cristo e ação sobrenatural do Espírito Santo que capacitou e deu
direção ao Kerigma do Evangelho. O
grande mistério que envolve a conversão não pode ser mensurado a não ser pela
experiência individual e pessoal, da mesma forma como um Fariseu Perseguidor se
transforma em um Apóstolo e um dos missionários mais eficientes da história
Bíblica, assim também o mesmo Messias continua transformando vidas, ideologias
e práticas, em um cenário contemporâneo de muitas filosofias e religiões.
REFERÊNCIAS
CARSON, D.A. et al. Comentário
Bíblico Vida Nova, Ed. 2009.
GREEN
Michael, Evangelização na Igreja
Primitiva, Ed. Vida Nova. 1984.
LADD
George Eldon, Teologia do Novo
Testamento. Ed. Hagnos 2003.
MOLTMANN
Jurgen, A Igreja no Poder Espírito.
Ed. Academia Cristã 2013.
Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Ed.Loyola,
Ed. Paulus, Ed. Paulinas 2013.
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